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riscos_e_rabiscos

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Em Fase de Provação!

Hesitei em colocar aqui todos os pormenores da minha cirurgia, Mas depois pensei que poderia ser útil a alguém que fosse passar pelo mesmo que eu. Pesquisei sobre o assunto para saber o que realmente me esperava, mas não encontrei nada de específico, concreto e objectivo. Daí a minha decisão em contar tudo.
 
Fiz o internamento no hospital Fernando Fonseca às 9 horas da manhã. Fui acompanhada pelo N., pela minha mãe e pela minha sogra que, por norma do hospital, teve de esperar lá fora.
 
Mandaram-me esperar numa sala até que me chamassem. Após mais de uma hora de espera, veio um auxiliar buscar-me e a outras pessoas para fazermos os exames pré-operatórios.
O 1º exame que fiz foi as análises. E aqui tem início a fase da minha vida a que eu chamo PROVAÇÃO.
Fui a última do grupo a fazer as análises e a que mais tempo levou. Acontece que as minhas veias são muito fininhas e dançarinas, pelo que as analistas têm sempre dificuldade em picar-me ( só uma vez e no sítio certo!). Daí o meu medo de agulhas.
Apesar da analista ser uma moça nova, devia ter bastante experiência pois, apesar das dificuldades acertou à primeira. Mas mesmo assim fiquei com o braço negro. De seguida, fiz o ECG e o Raio X.
Voltámos todos, novamente, para a sala de espera.
 
Finalmente, começaram a chamar-nos para nos atribuir cama. O atraso na sua atribuição deveu-se ao facto destas serem poucas para os homens.
Eu era a única mulher. Foi-me atribuída a cama 19 do maior quarto feminino daquela ala.
Troquei a minha roupa pela do hospital e mandaram-me vestir umas meias brancas elásticas acima do joelho, horríveis e apertadas. Ainda por cima tenho a “coxa grossa”. Não as suportava e dobrei-as até à hora da cirurgia. Fui alvo de gozo pois parecia o Dartacão.
 
Depois vieram fazer-me algumas perguntas para colocar no meu processo. Eu estava à espera, a qualquer momento, de outra coisa que eu tanto temia: a colocação do cateter. Veio um enfermeiro novo ter comigo para o colocar. Novamente palpação das veias e a constatação de que elas são muito chatas. Expliquei-lhe que o meu braço esquerdo era melhor pois é onde me picam sempre, ao que ele respondeu, com are de “papo seco”, que não tinha nada a ver e começou a colocar-me à mesma o cateter na mão direita. De repente, diz-me “já não dá, a veia já rebentou”. Só me apeteceu mandá-lo para o inferno. Eu não o tinha avisado?! Tinha de o colocar na mão esquerda e passar por aquelas dores de novo.
 
A esta altura, eu já estava cheia de dores de cabeça de não ter comido nem bebido nada em todo o dia. Só pude comer até às 7.30 da manhã e com 4 clisteres em cima estava fraquíssima. Já nem fome sentia.
 
Eram 18.40 vieram buscar-me para a cirurgia. Tinham-me dito que seria operada depois de almoço…
Veio um auxiliar chanfrado buscar-me, Desatou a empurrar a maca com toda a força e a correr. Não sei como não tive um acidente de percurso, tipo ir contra alguma parede ou esquina.
Quando cheguei ao bloco, mandaram-me passar para uma maca tipo passadeira rolante que me passou para outra maca do outro lado do bloco operatório.
Já não podia escapar, agora é que iam ser elas!
Entrei na sala de cirurgia e foi tudo muito rápido (pelo menos pareceu). As anestesistas eram simpáticas e bem dispostas. Tinha chegado o momento da raquianestesia (tipo epidural). Levei 6 ou 7 picadelas na coluna. Algumas doeram-me, outras nem por isso. Imediatamente comecei a sentir uma sensação estranha nos dedos dos pés. Era a anestesia a fazer efeito.
Pensei que não iria sentir dor mas que iria sentir o que iam fazer. Mas afina enganei-me porque não senti absolutamente nada.
Assim que começaram o procedimento cirúrgico, senti um cheiro a chamuscado e perguntei se aquele “cheiro a churrasco” era meu. Riram-se e reponderam-me que sim. Supus , então, que estariam a utilizar laser.
Entretanto, comecei a sentir-me mal disposta. Pudera! Com aquela dose brutal de anestesia… Elas injectaram-me uma substância para que me parasse a indisposição e não vomitasse.
A cirurgia não me pareceu que tivesse durado muito tempo mas a verdade é que não tenho consciência do tempo que estive lá dentro.
 
Fui para a sala de recobro e vinham constantemente ver-me e perguntar se estava bem e se já mexia as pernas. Levei muito tempo a mexer qualquer coisa. Via tudo a ir embora e eu a ficar ali. Primeiro mexi a anca e só depois foi a vez das pernas embora não tivesse qualquer percepção do seu movimento. O nosso cérebro é mesmo uma coisa fenomenal!!
 
Voltei, depois, para o quarto e só então me apercebi das horas pelos relógios dos corredores. Eram 21.30!
Quando cheguei ao quarto, estavam lá o N. e a minha mãe que, por especial favor, foi-lhes permitido que ficassem à minha espera.
 
Deram-me uma chazinho – única “refeição” desse dia - às tantas da noite e continuei naquela sonolência que deve ser própria. Apesar da sonolência, não consegui dormir nada:
 
1º As meias elásticas apertavam-me e eu não as podia tirar ( fiquei cheia de vergões vermelhos);
2º Estava sempre a tentar mexer os dedos dos pés ( o que só aconteceu já quase de manhã);
3º Doía-me as costas de estar tantas horas naquela posição;
4º Olhava, sistematicamente, pela janela para ver se já era dia (a vontade de sair dali era tanta…!)
5º As minhas colegas de quarto deram um “concerto” espectacular. Cada uma ressonava à sua maneira e uma delas completava o concerto com uns “acordes vindos do interior” fora de série.
 
A meio da noite vieram dar-me mais uma injecção. Desta vez na barriga. “Não vai doer nada, querida”, disse a enfermeira e… Pimba! “não dói nada o caraças”, pensei eu com uma sensação de dor/ardor na barriga. Mas depois de tntas picas, foi só mais uma.
 
Finalmente, a amanhã chegou. Estávamos todas ansiosas pela alta. Enquanto esperávamos, fomos tomar banho, tomar o pequeno-almoço (há mais de 24 horas que não me passava nada pelo estreito), vestir e esperar.
Por fim, a médica veio observar-me, falar comigo, fazer-me várias recomendações, dar-me alta e marcar nova consulta.
 
Liguei ao N. para me ir buscar mas como tinha “encomendado” o meu almoço teria de esperar um bocadinho. Como só podia comer coisas moles, a ementa era sopa, empadão e torta de coco. CHLEP!
Quando o almoço chegou, as minhas papilas gustativas bateram palmas de contentamento. Primeiro a sopa: Arrrgh! Sem sal, sem azeite e muiiita batata. O segundo prato: Hã?! Não se enganaram? Onde está o meu empadão?!? Almôndegas de peru… I hate PERU! E a sobremesa?? Quem a comeu? Minha rica tortinha de coco! A torta tinha sido transformada em… BANANA! Chuif!
Vim-me embora desolada por não comer a minha tortinha e ter sido enganada…
 
Agora estou na fase mais crítica disto tudo. Tenho de ir todos os dias ao centro de saúde fazer o penso à minha fístula e à minha fissura descoberta no acto da cirurgia. Não me bastava um mal, tinham que ser dois. Dependo de terceiros para me tratarem porque eu não chego lá. É o n. que é o “enfermeiro” pois a minha mãe não consegue e a minha sogra ia tendo um piripaki. Parece que a cratera é bem grande. É uma ferida aberta que tem de secar de dentro para fora. Isto é coisa para mais de um mês :/. Quase não consigo andar – tenho aquele “duck walk” – e sentar é um pouco complicado. Passo os dias a ver TV deitada ou a ler qualquer coisa que não exija muito da minha pobre molécula. Aos terceiros falta um cadinho de paciência e compreensão. Só quem passa por isto sabe dar o valor.
 
Como já devem ter percebido, o ridículo está sempre presente na minha vida, mesmo nas horas menos prováveis. Pelo menos deixa histórias para contar…